Viajando de carro pela Argentina e pelo Chile [DICAS]

Confira nossas dicas para uma road trip pela Argentina e pelo Chile depois de rodar 15 mil km por lá!

Uma viagem longa de carro sempre exige uma certa preparação. Não é como ir ali na esquina comprar pão. Antes de mais nada, é preciso avaliar se você, sua família ou amigos e principalmente a caranga, têm condições de aguentar tanto tempo e tanta distância.

Por outro lado, estar de carro possibilita uma mobilidade e flexibilidade muito maior ao longo da viagem. Você não fica tão preso a horários e a passeios.

Agora, se você já decidiu se aventurar em quatro rodas por aí, vamos a algumas dicas importantes para que você não tenha surpresas desagradáveis e possa aproveitar ao máximo o passeio:

DOCUMENTAÇÃO

Para viajar aos países vizinhos, não basta pegar o carro e sair guiando até a fronteira. Você precisará conferir e providenciar alguns documentos que são exigidos por lá. As exigências para os países do Mercosul e as exigências do Chile são diferentes. É preciso estar atento a este fato. Para trafegar pelo Mercosul, do qual a Argentina faz parte, você precisará do seguro Carta Verde, que é um seguro equivalente ao nosso DPVAT e é obrigatório para trafegar por lá. Ele tem esse nome porque é impresso em um papel verde mesmo. Este seguro custou pra gente R$ 158,00 para 15 dias de viagem (não incluímos os dias que trafegamos pelo Brasil, né). Mas fique atento. Se você tem seguro, confira com a sua seguradora se você já não tem essa cobertura ou se não consegue por um preço melhor.

carta verde

Até alguns anos atrás, este era o mesmo seguro exigido pelo Chile. Mas agora a coisa mudou. O Chile exige um seguro diferente, chamado Soapex, também equivalente ao DPVAT. Este seguro é vendido por seguradoras e é bem fácil de contratar. Fizemos com a HDI do Chile pela internet. Nos custou pouco mais de U$ 10,00. Fizemos para 10 dias, pois assim tínhamos a cobertura para o trecho até o Ushuaia e depois quando fomos a Santiago. Pegar para 5, 7 ou 10 dias muda alguns apenas cents no preço.

seguro soapex

Além dos seguros, a principal questão é sobre o documento do carro. É importante que o documento do carro esteja em seu nome ou que o proprietário do veículo esteja junto com você na viagem.

E sobre carros financiados?

Aqui a coisa é um pouquinho mais delicada com a tal carta de autorização de saída do país. Muita gente afirma que esta carta só é necessária no caso de carro financiado por leasing, pois assim o documento não está no nome da pessoa que financiou. Fomos até o consulado para nos informar melhor, pois nosso carro é financiado via CDC e não queríamos ter uma surpresa com isso. O fato é que é preciso a carta de saída do país nos dois casos. E segundo o consulado, o Chile é um país extremamente rígido com essa exigência.

Este ponto é delicado porque caímos na burocracia brasileira, bancária e cartorial… junta a fome com a vontade de comer, saca? Solicitamos este documento ao banco 4 vezes, com reclamação na ouvidoria, reclame aqui e tudo onde tínhamos direito. Ainda assim, levou mais de 20 dias para recebermos a tal carta.

viagem de carro pela patagônia

Mas não basta ter a carta. É preciso fazer uma apostila de haia, que é uma tradução padronizada do documento e que permite aos outros países validarem esta carta.

Então foi a vez do cartório, que não aceita o documento do banco, é preciso registrá-lo primeiro. Vamos a outro cartório! Chegando lá, levam 2 dias pra te dizer que não vão aceitar o modelo de carta do banco e que você terá que começar o processo todo de novo… Enfim… briga daqui, briga dali, vai e vem, taxa daqui, taxa de lá… foram mais uns 7 a 10 dias e 4 cartórios para conseguir sair com a tal apostila de haia. Entre taxas disso e daquilo, nos custou mais uns R$ 200,00 de documentação.

Agora tudo pronto? Lógico que não! Quem vai dirigir lá? A CNH brasileira tem validade em todo o Mercosul, e assim para ir para a Argentina não precisa de mais nada. Basta ela estar dentro da validade. Mas o Chile não faz parte do Mercosul, lembra? Então lá fomos nós tirar a carteira internacional, a PID. O processo é até simples, basta ir a um Detran e adivinha? Isso mesmo, pagar. Nós pagamos cerca de R$ 100 em cada uma e alguns dias depois recebemos em casa. Mas depois dos cartórios, o que é um Detranzinho, né?!?

PID - permissão internacional para dirigir

Fora a documentação do carro, basta você levar sua carteira de identidade (não vale CNH, nem carteira profissional) com menos de 10 anos de emissão ou o passaporte válido. Mesmo no Chile, nosso RG é aceito. Se você estiver viajando com menores de idade, é importante também levar a certidão de nascimento original do menor, no caso de estar viajando com os dois pais. Caso esteja só com o pai ou com a mãe, ou ainda com outras pessoas, é preciso uma autorização judicial para que o menor possa passar pela fronteira. Essa exigência é no Chile, não na Argentina. E tivemos mesmo que apresentar, então fique ligado.

Nós também levamos junto com os documentos, comprovantes de reserva de hoteis. Isso ajuda em algumas perguntas que te fazem na fronteira, e caso você fique sem internet, também ajuda a localizar o seu hotel ou bnb.

Estes são os documentos necessários para que você possa visitar o Chile e a Argentina. Mas agora vem a pergunta… disso tudo, o que realmente nós tivemos que usar?

viagem de carro pela patagônia

A gente fica até meio brabo… depois de tanto esforço, o que tivemos que apresentar foi: RG, registro do carro (não a carta, não a apostila, o registro mesmo) e a certidão do João. FOI ISSO! Ninguém nos pediu a carta verde, ninguém nos pediu o Soapex. Ninguém nos pediu a PID, ninguém sequer perguntou algo sobre esses documentos. Cara, eu queria mostrar, sabe!

Mas brincadeiras à parte, mesmo eles não nos pedindo, é importante ter estes documentos. Se eles ficarem com qualquer dúvida e por um acaso solicitarem e você não tiver, o problema estará criado! Então leve, mesmo sabendo que podem não servir para absolutamente nada.

SEGURO DO CARRO

Uma das nossas maiores preocupações era com uma possível batida ou um problema maior com o carro. Nosso carro fica direto na garagem de casa, e quando vamos em algum lugar, estacionamento. Para o trabalho, diariamente, vamos a pé. Por isso optamos por não ter seguro do carro. Mas para essa viagem, fui atrás de um seguro. Não vou colocar valores aqui porque varia muito de carro para carro, de cidade para cidade e coberturas que o seguro oferece. Mas o importante antes da sua viagem é: TENHA UM SEGURO e confira se este seguro te dá cobertura nestes países. Isso se chama extensão de perímetro. Boa parte oferece essa cobertura para o Mercosul, mas de novo, lembre-se que o Chile não faz parte do Mercosul.

viagem de carro pela patagônia

Outro ponto importante que checamos no seguro antes de fechar foi a disponibilidade de guincho com km livre. Se fosse o caso e tivéssemos algum problema, poderíamos trazer o carro para o Brasil em um guincho coberto pelo seguro.

SEGURO VIAGEM

Este é um ponto que causa um pouco de dúvida para os viajantes. Mas antes de explicar, vamos ao porque é importante ter o seguro.

Em geral, viagens de carro para um outro país são longas. Você não vai ali passar o final de semana e já volta. A possibilidade de você passar mal, seja pela comida, pelo calor, pelo frio, pela água que recebe um tratamento diferente, pelos insetos, pelos passeios que você vai fazer, enfim, é grande!

viagem de carro pela patagônia

E se você tiver que usar um hospital ou um pronto atendimento nesses países? Com raríssimas exceções, seu plano de saúde não cobre. E a conta pode ficar imensa. O seguro viagem serve justamente para te reembolsar estas despesas se eventualmente você precisar. E ele também pode cobrir seu retorno para o Brasil em uma série de condições. Esse seguro não é caro e é vendido por muitas seguradoras.

Mas antes de sair comprando, vamos ao ponto que causa dúvida em muita gente. Nós temos cartão de crédito internacional, que já nos oferece esse seguro (ao titular, cônjuge e dependentes até 21 anos, se não me falha a memória) sem custo adicional, já está embutido na anuidade do cartão. É bem simples, entrei no site da visa e emiti as apólices. Sim, para ter validade, é preciso ter emitido as apólices do seguro, que terão validade de um ano, pelo menos no caso do nosso cartão. Mas aí é que vem a questão. Muito se fala que é preciso comprar as passagens com o cartão para que o seguro tenha validade. Oras, se vou de carro, não tenho passagens para comprar, não é mesmo?

viagem de carro pela patagônia

Entramos no site da visa, emitimos o contrato e demos uma lida nas letrinhas miúdas. O contrato não fala absolutamente nada de PASSAGENS. Fala sim de despesas da viagem. Então, no nosso entendimento, se estou pagando os hotéis, o combustível e muitas outras coisas com o cartão, estamos pagando as despesas da viagem com o cartão. Mas não somos advogados, somos publicitários. Antes de se basear na nossa decisão, troque uma ideia com o gerente do seu banco ou com a central de cartões do seu banco. Mas nós fomos assim 🙂

EQUIPAMENTOS

As exigências de equipamentos para os veículos são um pouco diferentes das brasileiras. Vou citar aqui as exigências para veículos pequenos, de passeio, como o nosso. Eu sei que tem algumas diferenças para caminhonetes e trailers, então se for o seu caso, dê mais uma pesquisada.

No nosso caso, o primeiro equipamento solicitado é o cambão, que nada mais é que uma barra retrátil para rebocar carros no caso de defeito. Além disso, você precisará um kit de primeiros socorros, um segundo triângulo (isso, são 2, um para colocar na frente e outro atrás do carro) e a tal da mortalha. Precisa mesmo da mortalha? Não… mas o próprio consulado argentino sugere que se leve um lençol branco para evitar a mordida de policiais corruptos. Nós levamos, mesmo o código de transito deles não exigindo.

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Além destes itens, para o Chile você precisará também um colete refletivo, que deve vestir se precisar reparar o carro na estrada. Não são obrigatórios, mas nós adicionamos ainda no nosso kit: um cabo de chupeta para a bateria e um inflador/reparador de pneus, que é um produto que irá reparar provisoriamente e encher seu pneu no caso de um furo. Não precisamos, mas quem precisar dará graças a deus de ter um desses. Nós vimos bastante carro parado no acostamento ao longo da nossa viagem, então não é algo incomum um pneu furado no meio da estrada. Fique atento.

Ah, e não esqueça de andar com os faróis ligados mesmo de dia. É obrigatório por lá.

LIMPEZA DOS VIDROS

Nessa viagem, você perceberá que as estradas são repletas (repletas, repito) de insetos. E, naturalmente, estes insetos se chocam contra o seu parabrisa. Para poder enxergar melhor e, quem sabe, tirar algumas fotos, mantenha sempre cheio o reservatório de água do esguicho (você pode colocar alguns produtos extras, nós não colocamos). Peça também para limpar os vidros em todos os postos que parar. É um costume por lá. Também é costume dar uma gorjeta ao frentista (lá chama-se propina).

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ASFALTO

Em geral, o asfalto argentino dá um banho no asfalto brasileiro. Na grande maioria das estradas você encontrará asfalto liso e bem conservado. As velocidades máximas lá são de 110, 120 e até 130 dependendo da estrada. Como as retas são longas e intermináveis, é um desafio se manter nestas velocidades. Mas atenção! Lembre-se que sua viagem é longa e que o consumo do carro sobre a medida que seu pé afunda no acelerador. Nós fizemos as contas e andar a 90 ou a 120 poderia causar uma diferença de mais de R$ 1.500,00 na nossa viagem. 2km/l a mais ou a menos em 14.000km fazem uma diferença enorme. Então, programe bem sua viagem e modere nesse pezinho de chumbo.

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A exceção nas estradas hermanas é justamente a Ruta 40, a mais famosa dos viajantes. Ela tem 70km de rípio, que é aquele pedregulho e tem trechos com bastante buraco. Não é nela toda, mas o problema é que você vem na balada dos 130km/h e dá de cara com uns buracos imensos… não tem jeito, em um ou outro você vai cair.

No Chile o asfalto é bom também. Lá eles usam muito aquele asfalto que é tipo concreto. Ele é bem liso, mas as ranhuras da pista fazem aquele blum blum, blum blum chato o tempo todo, sabe? Mas você não terá as manobras loucas aqui do brasil para desviar buracos.

 

POLÍCIA NA ARGENTINA ENO CHILE

O comportamento da polícia na Argentina e no Chile é bem diferente. Na Argentina fomos parados praticamente em todas as entradas e saídas de cidades, com exceção das grandes. Nas estradas, eles fazem blitz e param mesmo os carros. E diferente aqui do Brasil, eles não te colocam no acostamento. A rodovia fica parada enquanto ele checa seus documentos.

Já no Chile, o policiamento também é bastante presente, mas percorremos a Ruta 5 do sul do Chile até Santiago sem sermos parados nenhuma vez. O mesmo também de Santiago até a fronteira com a Argentina nos Andes.

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Agora, existe a tão famigerada polícia corrupta argentina? Sim meus amigos, existe. Não é tão frequente quanto lemos em alguns blogs que relatam experiências de alguns anos atrás, mas nós encontramos na Ruta 40 uma polícia pedindo uma “propina”… Não demos. O fato de sermos brasileiros, por incrível que pareça, nos ajudou. Dissemos que não estávamos entendendo e nos mandaram seguir. Mas o carro que estava na nossa frente quando chegamos, teve que tirar absolutamente tudo do porta malas. Pela placa, ele era argentino.

Mas nosso medo com a polícia caminera, nas províncias de Entre Rios e Corrientes, não se confirmou. Fomos parados sim, várias vezes, mas sempre apresentamos os documentos, respondemos meia dúzia de perguntas e seguimos.

É importante também ter em mente que estávamos viajando em família. Se você vai viajar em um carro, com mais 5 amigos, fazendo farra, é bem mais provável que terá problemas em passar tranquilamente por lá.

ALIMENTOS

Quando a gente passa muito tempo na estrada, é comum (e necessário) levar alguns alimentos e bebidas. Nós também fizemos isso. Compramos um cooler e levamos sempre alguma coisa para ir beliscando e se hidratando. Mas atenção! Existem alguns pontos em que você não pode passar com alimentos de origem animal e vegetal não industrializados, sendo em todas as fronteiras entre Argentina e Chile e mesmo dentro da Argentina. Em uma situação tivemos que deixar um sanduíche para trás, por conter queijo e presunto e em outro ponto, dentro da Argentina, tivemos que deixar algumas peras que levamos ainda do Brasil. Espero que os fiscais tenham aproveitado bem 🙂

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Mas é importante ter isso em mente para que você não desperdice muita comida. Eles te dão a oportunidade de comer ou descartar, mas nem sempre você está com fome, e acaba deixando por lá. As peras, oferecemos mesmo aos fiscais, pois como nossa mãe já dizia, tanta gente passando fome na África e nós jogando comida fora? Não né… que alguém coma…

TIPO DE CARRO

Uma dúvida que a gente tinha no começo da viagem: Será que um carro comum, como o nosso, aguenta uma viagem dessas? Será que não precisamos de um 4×4? Nós temos um Peugeot 308, que além de ser um carro normal, ainda tem pneu de perfil baixo, tudo errado para pegar uma estrada dessas né?

Olha, é um grande engano. É totalmente possível fazer essa viagem com um carro normal. Claro, faça toda a revisão no carro antes de colocar na estrada, né. Você quer viajar, não ficar na oficina de cidade em cidade. Mas o nosso carro foi guerreiro.

Como a maioria das estradas é super boa, não há problemas. Asfalto até nas pequenas cidades que passamos. Os trechos de rípio são os mais complicados, mas nada impossível. É preciso um pouco de paciência e atenção.

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Em alguns trechos do rípio, se formam aquelas valas do peso dos carros e principalmente dos caminhões, deixando o centro e as laterais dessas valas extremamente altas. Para o nosso carrinho, isso é um problema, pois a faixa central ficava pegando no assoalho do carro (e destruindo tudo, óbvio). Mas tirávamos um pouco o pé, alinhavamos as rodas na parte alta e assim resolvia-se o problema. Tome muito cuidado, pois essa parte mais alta fica completamente fofa e assim você pode escorregar muito mais fácil. Então nada de dar uma de Ayrton Senna e sair a mil. Eles tem sistema de SOS a cada 10km ao longo das estradas, mas você não quer ter que usar, né?

Outra opção é ir de moto. Cruzamos com muitos grupos de motoqueiros (grupos pequenos, em geral, 3 ou 4 motoqueiros), principalmente próximo do Ushuaia. Encontramos os mais variados tipos de moto, então, é uma boa pedida para quem gosta.

Enfim, para quem curte pegar uma estrada, curtir a paisagem com a família ou com os amigos, é uma viagem sensacional e totalmente viável. Se prepare bem, principalmente se você vai com crianças, e pé na estrada.

Ah, não esquece de fazer uma playlist bem longa, você vai precisar!

Até a próxima aventura!

Leia nossos diários dessa viagem incrível que fizemos até o fim do mundo!

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