Ushuaia – Diário de viagem – dia 9 – De El Calafate a El Chalten e Los Antíguos

Passamos os dois últimos dias praticando trekkings pela patagônia como se fossemos atletas super preparados. No Ushuaia, fizemos quase 10km até chegar na Laguna Esmeralda. Já em El Calafate, caminhamos por mais de uma hora na geleira Perito Moreno. O resultado? Coração transbordando de tanta coisa bonita que vimos e vivemos e uma dor sem fim do dedinho do pé até a pontinha do nariz. Precisávamos muito de uma noite bem dormida. O hotel que ficamos era razoável, mas longe de ser um dos melhores. Reservamos nosso quarto com uma cama de casal e outra de solteiro, mas quando entramos no quarto, lá estavam as três camas de solteiro. Não posso negar que para descansar, foi uma beleza.

O hotel estava lotado de turistas brasileiros, daqueles bem espalhafatosos, sabe? O café da manhã virou uma zona e conseguir se servir foi bem complicado. Essa foi a região que mais encontramos turistas brasileiros. Como disse uma italiana que cruzamos no almoço: “Brasileiros aqui são como os chineses lá na Itália. Estão por todos os lados.” E era verdade. No hotel mesmo, quando estávamos indo embora, um casal que estava do lado de fora gentilmente abriu a porta pra passarmos com as malas e logo soltamos nosso ensaiado “gracias”. Foi quando eles falaram entre si, em português: “Como é de nada mesmo?”. Caímos na gargalhada, todos brasileiros, tentando se comunicar em espanhol.

Carregamos nossas malas e partimos para abastecer o carro, antes de partir para El Chaltén. Encontramos apenas dois postos de gasolina em toda a cidade, um que estava fechado para abastecimento e outro que tinha uma fila quilométrica. Já que estávamos com menos de meio tanque, resolvemos entrar na fila. Conversa vai, conversa vem e bum! O amiguinho argentino que estava na nossa frente na fila, simplesmente deixou o carro correr e bateu no nosso carro. Eu, louca da vida, já começo a fazer cara de brava lá de dentro do carro – claro, olha o meu tamanho! – já a argentina desceu toda espalhafatosa, querendo ver se estragou alguma coisa, falando e gesticulando. Por sorte, quando o carro deles correu para trás, o Andre conseguiu dar a ré rapidinho, o que fez com que o carro deles só encostasse no nosso, sem amassar. Depois da troca de meia dúzia de palavras em português e espanhol, – e a minha cara feia que idioma qualquer entenderia – todos entraram no carro e continuaram esperando o abastecimento, sem grandes prejuízos. A gasolina aqui estava R$ 3,05 o litro.

Posto de gasolina em El Calafate

Pelo caminho, além dos diversos mochileiros pedindo carona, encontramos também diversos pontos com demonstrações da fé do povo argentino. São pequenos – alguns gigantes, é verdade – santuários, com bandeiras e casinhas vermelhas. No começo da viagem, quando começamos a ver com frequência, até postamos lá nos stories uma pergunta para ver se alguém sabia do que se tratava. Alguns chegaram até a dizer que era macumba ou oferendas para o chifrudo. Até onde pesquisamos, não é nada disso. Trata-se de uma homenagem a Gauchito Gil, o santo gaúcho argentino. Apesar de não ser reconhecido pela igreja católica, Gauchito é o santo mais popular entre os gaúchos. Diz a lenda que a crença no santo começou depois que esse homem foi recrutado na guerra civil e enquanto dormia, uma divindade o alertou que a guerra não tinha fundamento algum, fazendo com que ele não se apresentasse ao exército. Dado então como desertor, foi perseguido pelo exército argentino durante um ano, tempo em que conseguiu se esconder pelo país, com a ajuda de admiradores de sua coragem. Quando foi encontrado pelos militares que tinham a ordem de matá-lo, pediu piedade, contando para o oficial que o prendeu que teve um sonho onde viu que seu filho estava doente, assim pediu para que ele rezasse pela vida do filho, em seu nome. O militar o matou, mas rezou em seu nome pelo filho, que pouco tempo depois estava curado.

Santuários para Gauchito Gil

De El Calafate para El Chaltén, nossa primeira parada do dia, foram 214 km. Metade do trajeto fizemos pela Ruta 40 e a outra metade, já chegando em El Chaltén, fomos pela 23. Nos primeiros 5km da Ruta 40, o termômetro do carro despencou 6 graus. Quanto mais perto chegávamos de El Chaltén, mais frio ficava e maior era a velocidade dos ventos. De todos os trajetos que fizemos até agora, esse foi o mais difícil de manter o carro na pista. O vento é forte mesmo.

estrada El Calafate a El Chaltén

Como era de se esperar, as paisagens pelo caminho foram maravilhosas. A estrada beira o Lago Argentino em muitos pontos. Aquele azul turquesa em meio aos tons terrosos e verdes da natureza fizeram a gente parar o carro diversas vezes para admirar sem pressa, toda aquela beleza. Próximo a El Chaltén, esse mesmo lago muda de nome, passando a se chamar Viedma, mas a sua cor continua deslumbrante. Aproveitamos a paisagem para registrar nossa passagem de carro pela patagônia. Claro que rendeu boas gargalhadas, né? Era um ritual, tínhamos que esperar todos os carros passar, colocar o tripé, arrumar o ângulo, se posicionar. Para, para! Tá vindo carro. Tira o tripé, espera e começa tudo de novo. Uma corrida maluca em busca da foto perfeita. Adoramos o resultado!

Lago Viedma El Chaltén

Lago Viedma El Chaltén

Vem ver o meu mundo na Patagônia

Vem ver o meu mundo na Patagônia

Um pulo na Patagônia

Um pulo na Patagônia

Do alto de uma montanha já conseguimos ver a cidadezinha de El Chaltén, com seus imensos picos nevados e casinhas charmosas. Chegamos com fome e encontramos o El Mirador. Um lugar simples, ao lado da rodoviária e com empanadas deliciosas. Super indicamos pelo preço, pelo sabor e pelo atendimento.

Chegada em El Chaltén

El Mirador em El Chaltén

El Mirador em El Chaltén

Ficamos pouquíssimo tempo na cidade, com muita vontade de voltar. As ruas são charmosas, convidativas. O vai e vem alegre de turistas mochileiros é contagiante. Se não tivéssemos reserva feita para essa noite, certamente passaríamos mais tempo por aqui.

Placa da cidade de El Chaltén

El Chaltén

El Chaltén

Infelizmente – ou felizmente, pois ainda tínhamos muito pra ver na patagônia – seguimos viagem, nossa reserva em Los Antíguos nos esperava. Na saída da cidade vimos um posto e paramos para abastecer, mas estava fechado para reabastecimento. Valeu a parada para registrar o posto diferentão, feito de containers.

Posto de gasolina em El Chaltén

Aqui o vento também era muito forte, mas para ficar um pouco mais emocionante, entramos em uma estrada de rípio – uma mistura de terra, areia e cascalhos – e tivemos que percorrer 70 km por ela. Como vocês sabem, não estamos com um 4×4 todo preparado pra isso. Nosso peugeotzinho tem sido um guerreiro, aguentou firme até aqui. O carro sacudia bastante e em certos pontos chegava a escorregar naquele monte de cascalhos. O barulho era alto e preocupante, ficava imaginando como estaria a lataria do carro nesse momento. Aqui fica uma dica. Lemos em muitos blogs que para chegar ao Ushuaia pegaríamos quase 80 km de estrada de rípio. Achamos estranho quando chegamos lá e passamos por míseros 10km. Mas quando chegamos aqui, entendemos. Esse trecho de rípio fica na Ruta 40. Quem desce para o Ushuaia pela Ruta 3 não pega esse pedaço, como descemos pela 3 e estamos subindo pela 40, só pegamos ele agora. Mas tudo correu bem e saímos desses 70km “massageados” e prontos para mais paisagens de tirar o fôlego.

Trecho de rípio na ruta 40

Trecho de rípio na ruta 40

Assim que saímos do trecho de rípio, passamos por uma ponte pequena, mas muito bonita, que também garantiu belas fotos. Agora a estrada voltou a ficar tranquila, as paisagens mudaram mais uma vez e o céu estava muito bonito, com nuvens bem diferentes das que estamos acostumados a ver.

Ponte de ferro na Patagônia

Formação de nuvens na Patagônia

Formação de nuvens na Patagônia

Revezamos o volante e adivinhem? Fui a sorteada para passar pela primeira e única polícia corrupta de toda a viagem. Já estava escuro, a estrada estava vazia, o Andre e o João estavam tirando um cochilo enquanto eu dirigia até Los Antíguos, quando vejo lá longe, luzes azuis e vermelhas piscando. Diminuí a velocidade e acordei o Andre, assustada. Quando fomos chegando perto, vimos que era a polícia, no meio da pista fazendo sinais com os bastões iluminados. Paramos, abri o vidro e eles logo soltaram: “Propina, propina”- que em espanhol é gorjeta – Andre, mais que ligeiro, não me deixou falar e respondeu: “Não entendi.”. Eles repetiram e lá foi o Andre repetir que não entendeu. Eu só olhava pro Andre, nervosa e repetia: “Também não entendi, não”. Enquanto isso, um deles pediu nossos documentos e foi para longe do carro, os outros policiais se olhavam, trocavam meia dúzia de palavras que não entendíamos, quando um olhou pro outro e disse: “São brasileiros, será que deixamos passar?”. Por sorte, os dois concordaram, devolveram os nossos documentos e eu segui, com o coração na mão.

Pela estrada até Los Antíguos é muito comum cruzar com coelhos imensos, emas, cervos e até tatus! A noite, sem nenhuma iluminação além dos faróis do carro, se não estiver atento certamente vai trombar com um desses bichinhos. Passamos raspando por vários.

Outro detalhe interessante é que todos os viajantes se cumprimentam pelo trajeto. Seja de carro, de motor home, de moto e até de bicicleta, sempre rola um aceno ou uma buzinadinha.

Chegamos no Hotel Mora já era 01h30 da manhã e fomos muito bem recepcionados. O hotel era simples, mas uma graça. Ficamos bem em frente ao Lago Buenos Aires, amanhã a vista do café da manhã deve ser incrível.

Hotel Mora em Los Antíguos

Hotel Mora em Los Antíguos

 

Esperamos vocês para o café.
Boa noite, viajantes!

Obs: Valores em real, com o câmbio do dia 30/12/2018.
Mais ou menos 10/1.

Leia o Diário de Viagem – DIA 8 – De Rio Gallegos a El Calafate

Leia o Diário de Viagem – DIA 10 – De Los Antíguos a Bariloche

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